As minhas histórias

A Júlia – 1

 

 

A Julia era uma menina aparentemente feliz. Os pais que tudo davam à sua filha, uma família numerosa, uma casa grande com um jardim para brincar, correr, saltar e dançar.
A mãe da Julia, Amélia, uma advogada de sucesso, trabalhadora, focada e empenhada, autoritária, com uma inteligência emocional muito pouco aprimorada e um sentido de humor inexistente. O pai da Julia, Pedro, jardineiro desde os 12 anos quando ia com o seu avô podar as arvores e arbustos dos vizinhos e jardins municipais. Trabalhador mas nada exigente, divertido e honesto, sem estudos mas dotado de uma inteligência emocional brilhante, defendia que passar os dias a rir com um copo de cerveja na mão era o melhor da vida.
Casados há mais de 20 anos, incompativeis mas com uma relação de amor e respeito. Têm em comum uma característica, muito pouca sensibilidade para o que de melhor a vida lhes proporcionou, a Julia.
O seu quarto cor-de-rosa decorado com os maiores e melhores brinquedos, arrumados e organizados meticulosamente, onde as suas bonecas penteadas e vestidas a rigor estavam sentadas delicadamente com uma chávena de chá em cima da mesa, onde os elásticos e laços do cabelo estavam arrumados por tamanhos e cores, onde só a Julia podia entrar. E todos achavam maravilhoso este comportamento metódico e exemplar da pequena Julia que, pouco falava e nada sorria. Caracterizada por ser “de poucos amigos”, egoísta e organizada.

A Julia gostava de dançar Ballet, mas só dentro do quarto, sem ter plateia por perto, sem olhares, sem sentir respirações criticas. Sonhava um dia ingressar numa escola de Ballet em Paris. Deitada na cama imaginava como seria o auditório onde ia actuar. Desenhava o palco, desenhava com muitas cores, desenhava a roupa que ia vestir e dançava, dançava como se se tratasse de um espectáculo. Adormecia a ouvir música clássica, baixinha, para ninguém desconfiar.
Todos os dias o ritual era o mesmo. Acordava e ia tomar o seu pequeno almoço, com a companhia da empregada e do cão Lorde, os pais há muito que já tinham saído de casa. Escola o dia todo e, a parte melhor do seu dia era chegar a casa, ao por-do-sol, dentro do seu mundo cor-de-rosa, vestir o maillot e calçar a sapatilha. Transportava-a para sensações maravilhosas, felizes e únicas.

E assim era uma criança, aparentemente feliz. No seu universo de sonhos e cores.
Mas, até quando a Julia consegue viver amarrada a um sonho que, para ela, nunca irá passar disso?
É que, entretanto, já passaram 20 anos. 

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3 thoughts on “A Júlia – 1

  1. Algo que a minha filha adora……escrever! Fá-lo com muito gosto, paixão e imaginação que até parece real. Apetecia-me dizer, se não a conhecesse, que ela teria sido uma Júlia……fica-me a dúvida pois sempre respeitei os seu momentos de silêncio no quarto. A escrita sai-lhe de forma espontânea e cheia de sentimento. Parabéns filha! A parte 1 da tua Júlia está fantástica…..consegues transportar-nos para a acção. Continua a escrever assim…….com amor e paixão!

  2. Pois é Martita, desculpa o diminutivo mas só posso concordar com a tua mãe, tens uma apetência natural para a escrita, continua… Quero continuar a conhecer a Julia, quero sentir-me transportada para o centro da tua história. Parabéns!

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